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Sobre ser e ter amigo

A distopia na literatura: 7 títulos principais e 1 extra

Escrito por Colaboradores em 9 de julho de 2015

Por Aléxia Saraiva

Ver o copo meio vazio é comum não só no dia-a-dia como também na literatura. Muitos autores se consagraram como clássicos ao longo da história por criticarem a evolução da tecnologia e da própria sociedade: são as chamadas distopias.

Em geral associadas à ficção científica, as distopias são “a descrição de um lugar fora da história, em que tensões sociais e de classe estão aplacadas por meio da violência ou do controle social” – como diz Roberto de Sousa Causo, um importante estudioso do tema. Como o próprio nome sugere, a distopia é o contrário da utopia, ou uma “utopia negativa”.

As utopias surgiram como uma imagem invertida do real, como uma espécie de contrapartida positiva da razão: a utopia seria o mundo possível a partir do momento em que todas as crenças foram superadas.

Os universos opressivos descritos em vários desses livros têm algumas características comuns, como uma sociedade em que a polícia está sempre presente, de forma totalitária, e em que a individualidade se anula quando confrontada com o Estado. Pílulas como forma de alienação também são encontradas em várias obras, anulando a consciência de qualquer personagem que se proponha a pensar de forma mais rebelde e proporcionando um escapismo.

No entanto, o maior denominador comum é a tecnologia como forma de opressão. Isso pode ser encontrado de forma mais subjetiva como em Laranja Mecânica ou de forma gritante como em Admirável Mundo Novo, mas faz parte da diversão ver até onde acertou a imaginação dos autores que se propuseram a criticar o caminho da sociedade.

Até onde vamos? Todos os livros a seguir respondem essa pergunta de alguma forma.

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

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Na minha opinião, a maior obra-prima distópica até agora escrita, por um simples motivo: ela é tão engenhosamente desenhada pelo autor que a sociedade descrita por ele não vai se esgotar. Baseada na felicidade proporcionada através do soma – uma droga alienante que só causa bem-estar -, da satisfação de qualquer desejo e da desconstrução do conceito de família, ela não se desmancha por não ter quem confronte um Estado que te dá mais do que você necessita. Em 634 d.F. (depois de Ford) o Estado científico zela pelos cidadãos. As pessoas são pré-condicionadas biologicamente e ocupam funções pré-determinadas na sociedade, como castas.

Como não se caracteriza como uma obra política nem à esquerda, nem à direita, ela abrange grandes públicos. Um must read apaixonante.

1984, George Orwell

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Com um roteiro mais complexo do que Admirável Mundo Novo, escrito em 1948, conta a história de Winston, um trabalhador comum que tem ideias contrárias às impostas pelo Partido. Mesmo sendo contra todas as leis, ele procura formas de se rebelar contra um Estado extremamente violento e opressor, caracterizado pela imagem do Grande Irmão, o líder onipresente e onisciente. Vale a comparação entre esse e o primeiro livro da lista, porque neste a manutenção da sociedade oprimida é muito mais cara ao governo, por ser mais trabalhosa: ela suprime todo tipo de desejo.

Orwell escreveu essa obra pensando no comunismo sendo levado ao extremo, criticando seriamente a União Soviética à época.

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

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Fahrenheit 451 foi publicado em 1953, mas sua ação se passa num futuro não muito distante dessa época. O enredo acontece numa cidade americana, mas com nada muito diferente a princípio. Ela é apenas mais opressiva e sombria do que grandes cidades em geral, com um misto de progresso industrial e deterioração da sociedade, onde meios de transporte ultramodernos atravessam bairros decadentes. A única diferença gritante é que todas as casas são à prova de fogo, por um motivo bem simples: qualquer uma que tenha qualquer exemplar de livro será queimada. Os bombeiros de Radbury são agentes de higiene pública que queimam livros para evitar que suas ideias perturbem o sono dos cidadãos, os quais são diariamente sufocados com doses de televisão e comprimidos narcotizantes.

Curiosidade: Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel do livro cede ao fogo.

Não Me Abandone Jamais, Kazuo Ishiguro

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Um pedido: não assista nem ao trailer, nem ao filme com Andrew Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan se você tem a mínima intenção de ler o livro. A obra é dividida em duas partes, o antes e o depois da descoberta do grande porquê dos personagens existirem (segredinho básico revelado nos primeiros segundos do trailer). Kathy, Ruth e Tommy são melhores amigos que cresceram juntos e foram criados para algo maior que eles não entendem o que. São frutos da evolução tecnológica de sua sociedade, mas como não perderam sua humanidade resta a reflexão.

Laranja Mecânica, Anthony Burgess

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A obra de Burgess às vezes fica ofuscada pelo grande filme de Stanley Kubrick, mas com certeza vale a leitura pelas nuâncias que só um livro consegue trazer e apontar. A história é contada com uma nova linguagem criada pelo autor que mistura inglês com russo: o Nadsat. O protagonista é Alex, um adolescente que toma a violência como diversão. O livro aborda a liberdade de escolha e o controle da consciência e do amadurecimento pelo qual todos passam e como o desenvolvimento científico (e o behaviorismo) lidaria com essas possibilidades.

Pequeno Irmão, Cory Doctorow

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Mais voltado para quem gosta de tecnologias, Pequeno Irmão conta a história de um adolescente que começou a ser perseguido pelo Departamento de Segurança do governo americano depois de um mal entendido acontecido em um ataque terrorista à São Francisco. Cabe a ele se rebelar como pode: criando uma rede paralela para derrubar o sistema. Muito interessante para quem se interessa mais por programação e menos pelo roteiro ou pelas articulações do Estado. Por se passar numa sociedade não tão distante, esses aspectos são bem secundários.

E o título remete, sim, ao Grande Irmão de 1984.

Nós, Yevgeny Zamyatin

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Uma das mais sombrias visões de futuro já escritas, este livro antecipa toda a tragédia do século XX e seus estados totalitaristas. Foi escrito com base na experiência do próprio autor durante a Revolução Russa de 1917. O livro conta a história de uma sociedade reprimida e controlada pela imagem do Benfeitor. Liberdade, a imaginação e a criatividade são consideradas as causas da infelicidade. Os apartamentos são de vidro e cada cidadão acompanha e fiscaliza a vida do outro. O matemático D-503 entra em crise quando faz duas descobertas: a existência da alma, tomada por ele como uma doença incurável que lhe dá a capacidade de pensar por conta própria, e os defeitos do sistema, apontados por um grupo rebelde que encontra. Assim, o autor faz uma crítica severa à humanidade como um todo. Afinal, até que ponto estamos realmente dispostos a ir para manter a liberdade?

E… Mais um!

Brave New World Revisited, Aldous Huxley

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Este livro é uma série de ensaios escrita por Huxley 26 anos depois da publicação de Admirável Mundo Novo, e faz uma auto-crítica com base nos principais elementos da obra, mostrando como o caos estava chegando muito mais rapidamente do que um Huxley mais jovem tinha previsto. Já estamos numa sociedade em que nossa liberdade é ilusória e nossas escolhas são pré-determinadas por agentes que nem sequer imaginamos. Não é uma distopia, mas a reflexão sobre uma. Vale a leitura pelos pontos que ele aponta para uma auto-reflexão da sociedade. Até que ponto é necessário ir antes de se chegar às loucuras apresentadas nesses livros?

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