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Ser Mulher, uma busca por identidade

Feminismo Negro: Nossas Histórias E Sensibilidades Importam

Escrito por Colaboradores em 13 de julho de 2017
Por Hadassa Gomes

Permitam-me desenrolar minha escrita através de umas breves lembranças que, agora há pouco, tive de minha infância.

Lembro-me que certas vezes nas aulas de educação física, entre corridas e jogos de vôlei, era como um tipo de ”regra” eu chorar por algum motivo. Geralmente porque cobravam sempre muito de mim. Sendo uma das mais altas da turma, eu deveria saber jogar muito bem vôlei e basquete. Tendo pernas longas eu deveria correr muito mais do que os outros, já que as minhas poderiam estar alguns centímetros a frente do colega que estava competindo. E por aí vai.

Mas a verdade é que, quando eu não atingia as expectativas depositadas em mim, os olhares de reprovação eram quase que inevitáveis. Como se o fato de eu falhar, fosse uma atrocidade.

Neste ínterim, houve uma aula específica, em um dia específico, no qual eu tinha me machucado em um jogo, as costumeiras lágrimas, não esperaram nem sequer um minuto para desaguar dos meus olhos. O professor, com olhar de desaprovação, disse para mim que eu “deveria parar com isso”. Que as coisas que sentia eram apenas exageros, que eu deveria aguentar, pois aquela atitude não combinava comigo.

Avançando alguns anos, me recordo também em esperar ansiosamente pelas aulas de arte, nas quais eu poderia expressar um turbilhão de emoções, do modo que eu quisesse. Contudo, as circunstâncias não foram essas. Não foram poucas as vezes em que, quando eu fazia um trabalho relativamente bom – ou assim considerado – fui questionada sobre ser a autora dele “de verdade”.

O ponto em comum entre essas duas fases da minha vida foi a desvalorização de minha sensibilidade, tanto emocional, quanto artística.

A Sensibilidade

Esses devaneios e reflexões nostálgicas e agridoces, me fizeram pensar em como é engraçado, e um tanto trágico, saber que nós, negros e negras, sempre que expomos nossa sensibilidade, somos questionados. Como se ”ser sensível”, através de nossas ações, arte, fala e posicionamento, fosse algo de outro mundo, algo incomum e um pouco ultrajante.

No Documentário ” Ah, Branco! Dá um tempo.”, um dos estudantes relata que enquanto desenvolvia um projeto seus colegas ficaram muito surpresos, uma vez que diziam não imaginar que “gente como você tinha sensibilidade pra arquitetura”.

Nos ensinam a lidar com as ”sutilezas” do racismo. Pois assim, quando os apontamos nosso discurso pode ser reduzido, alegado como mero vitimismo e exageros momentâneos.

O Racismo Estrutural

Sabemos como o racismo estrutural funciona. Já aconteceu com os nossos antepassados: suas histórias, suas vivências também foram destorcidas e mascaradas. Suas figuras foram reduzidas a de pessoas sem valor. Acostumadas a lidar com o trabalho árduo, mas não possuidores de qualquer alma.

Na contemporaneidade, é possível observar o quanto, nós pretos e pretas, também passamos a aceitar essa condição. Uma vez que nos contaram e continuam reproduzindo, em todos os veículos de ensino possíveis, apenas uma versão da história – aquela que apaga o nosso passado e ancestralidade.

A escritora e feminista nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie, ilustra muito muito bem as consequências dessa reprodução de uma única história, sempre negativas, que generaliza e negligência as várias outras histórias que formaram o povo negro:

” Uma única história, cria estereótipos e o problema com o estereótipo, não é que ele seja mentira, mas sim incompletos.  A consequência de uma uma única história, rouba de nós a dignidade, faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil, enfatiza como somos diferentes em vez de como somos semelhantes”.

Ao falar sobre nós, precisamos nos ver como seres que, apesar de sociais, possuem individualidade –  únicos, cada um de nós, pois carregamos em nosso corpo nossas vivências, dores e histórias. E assim sendo, por que então qualquer pessoa pode presumir que não somos seres dotados de uma sensibilidade tamanha?

Liberdade!

Nós, pretos, precisamos questionar a nossa ausência em espaços criativos; precisamos causar uma ruptura nos rótulos e estereótipos que nos aprisionam e diluem a nossa essência, pouco a pouco.

Tudo em nós exala sensibilidade: nossos traços, nossos cabelos, nossa cultura, nosso estilo… Somos todos uma gigante, intrigante e imensurável obra de arte. Nossa árdua missão é aprender a nos humanizar. Para que assim, possamos sentir que temos o direito de sentir, chorar e até mesmo enfraquecer, quando necessário. Pois ao contrário do que muitos já disseram ou pensaram, somos sim, sensíveis da cabeça aos pés.

E não há nada de errado com isso, eu prometo.

A Autora

Hadassa, 23 primaveras, africana, designer de moda , sonhadora por natureza, mãe de plantas e autora do blog Se Essa Preta

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