Indumentária em Fraiburgo: tratamentos estéticos com maçã

O fim pode ser o começo para quem sabe amar

O que é ser feminista para você?

Escrito por em 6 de agosto de 2016

Dizer-se feminista é estar disponível para a reelaboração constante de si tendo como meta procurar garantir a mim e ao outro a integridade do ser de cada um de nós. É incentivar e respeitar em mim o protagonismo e a autonomia das minhas escolhas e decisões incluindo aí o meu corpo, o meu pensamento e as minhas ações, e uma vez que quero isso para mim, respeitar do mesmo jeito as outras pessoas.

Porque eu senti e ainda sinto na própria pele a opressão de gênero, é reconhecer que o(a) outro(a) pode ter vivido ou pode estar vivendo outros tipos de opressão que eu jamais experimentei e nem experimentarei, por não experenciar as mesmas relações de ser e de viver como elx. É saber ouvir, saber dar espaço, saber deixar que as pessoas falem por si mesmas, permitir-lhes o protagonismo de suas próprias vidas e iluminar em mim formas de opressão que eu mesma reproduzo no dia a dia sem me dar conta.

Nesse sentido, é se posicionar com humildade como alguém que não sabe de tudo e que está disposto a se desculpar, aprender e a se reinventar todos os dias. Isso significa reconhecer e respeitar as diferenças que podem ser sentidas por qualquer ser diferente de mim devido à sua orientação sexual (homossexuais, lésbicas, assexuais, etc), identidade de gênero (transexuais, travestis, queer, masculino, feminino etc), constituição física (intersexuais, raça, padrões estéticos divergentes, etc), faixa etária (pessoas de diferentes idades experimentam opressões diferentes: crianças não são respeitadas na sua integridade, individualidade, privacidade, etc; idosos e idosas, do alto de sua experiência de vida, não são considerados na sua integridade, etc) e classe social (incluindo aí não apenas condição financeira, mas também capital simbólico como conhecimento erudito e outras formas de estratificação social). Em resumo, é trazer para o cotidiano a noção de direitos humanos: todo ser humano é único em sua singularidade e carrega consigo a ideia de humanidade inteira e, por isso, deve ser respeitado na sua integridade (Veja a Carta dos direitos humanos).

Mas os direitos humanos foram criados em um contexto específico da sociedade europeia ocidental e apesar de conter, por exemplo, o respeito às crenças, historicamente não tem dado conta da ideia de respeito à diferença em sua totalidade (a exemplo do uso do véu muçulmano na França). A ideia de equidade na diferença é um tema complexo que tem reunido multidões de estudiosos que tentam driblar o fato de que os direitos humanos são invenção de uma determinada sociedade (com aparatos culturais próprios) em um tempo histórico e que, por isso, não contêm a resposta para as diferenças humanas em sua totalidade. Equidade e justiça ainda são um grande desafio a ser enfrentado.

Apesar de me orientar também pelos direitos humanos, o feminismo tem o pé no chão do cotidiano, com a ênfase na experimentação da opressão sem muita erudição intelectual ou divagação mental. Considero uma boa ferramenta para o exercício diário como colocar no devido lugar aquela repulsazinha básica que sentimos quando nos confrontamos com algo que não nos é estética ou emocionalmente atraente em função de nossos valores, crenças e tradições. O mesmo vale para quando nos arvoramos a querer “salvar” alguém de uma opressão que julgamos presenciar, mas que nem sempre o é aos olhos de quem se encontra, de fato, empoderadx. Cada um deve falar por si.

Exemplo complexo são os recursos para projetos feministas financiados por organismos internacionais para povos indígenas. Como avaliar se as mulheres se encontram empoderadas em contextos culturalmente diversos? O protagonismo deve ser respeitado em qualquer circunstância. É um exercício de empatia. O outro é o outro e tem o direito de ser como ele é, do jeito que é. A outra é a outra e tem o direito de ser como ela é, do jeito que é. O mesmo vale para quem se sente representado com o termo outrx. Foi o feminismo quem trouxe para a ciência os estudos de gênero, que analisam as construções culturais em tornos das categorias criadas a partir do sexo biológico, identidade sexual e orientação sexual. Um mundo de significações inteiro foi descortinado, e até mesmo aquele que se identifica como homem e de orientação sexual hétero sofre com as imposições do machismo e do patriarcalismo. Por que não enxergar essa dor também?

A opressão pode ser mais ou menos sutil, percebida ou não percebida por quem a sofre. Isso significa dizer que há pessoas que não se dão conta da opressão a que estão submetidas, mas nem por isso devam ser desconsideradas ou tratadas com menos dignidade. Ao contrário. Acredito que devemos acolher sempre, praticar a escuta ativa e, com paciência, sem imposições, oferecer outros pontos de vista.

O feitor na história da escravidão no Brasil nos dá um exemplo clássico relacionado à raça. Geralmente filho de um branco com uma escrava, reproduz a violência do senhor com fervor na esperança de a ele ser direcionado aquele olhar de reconhecimento por tantas vezes desejado. Seus atos primam pela sua aceitação na casa grande, mas, sabemos, ele jamais ultrapassará a varanda. Dá para fazer um paralelo com a opressão da polícia militar brasileira e o grande número de jovens negros mortos, ainda que a PM não seja majoritariamente constituída por brancos.

O machismo na objetificação da mulher, o patriarcado que promove a subserviência feminina ou a valorização da predominância do homem adulto, branco, heterossexual e financeiramente privilegiado existe e está presente em todxs nós. Note como é difícil escrever em Português sem a determinação específica de gênero… ‘Ele’ contém ‘ela’, mas ‘ela’ não contém ‘ele’. Por quê? Pensar leva a gente longe.

Este texto está em constante transformação. Nele incluo o “x” da indefinição de gênero para abarcar também as pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros hegemônicos, o masculino e o feminino.

Texto: Lea Tomass
Editora da coluna: Andrea Mayumi

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  1. Juan em 5 de novembro de 2017

    Bacana.

  2. milagre da gravidez em 5 de janeiro de 2018

    Nossa! Quanta informação de qualidade nesse site. Parabéns e sucesso

    • Hellen Albuquerque em 21 de janeiro de 2018

      Muito agradecida! Ficamos muito felizes que tenha gostado 🙂
      Muito sucesso para você também! <3

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