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Namore alguém que seja diferente

Blood: Quem tem medo de menstruação?

Escrito por em 6 de junho de 2016

Em um grupo de mulheres, com homens presentes na sua minoria, combinávamos de ir a um barzinho. -A entrada é um pacote de absorventes – uma explica.

-Ótimo, já compro mais para mim – respondo. Alguns risos incômodos, silêncio breve, mudança de assunto.

Existe um código não falado sobre em que momentos podemos comentar sobre menstruação. Nunca em frente a homens. Ou em lugares públicos. Ou com alguém que conhecemos há pouco tempo. Se for um paquera então…. Um processo tão natural, que acontece com todas as mulheres. E, no entanto, é tachado como anormal, anti higiênico, sujo. Seu sangue é sujo?

A tal da menstruação nada mais é, que a descamação das paredes internas do útero. Este, se prepara para a gravidez constantemente, e quando ela não ocorre, o endométrio (membrana interna do útero) se desprende.

Em termos científicos, tudo parece mais esterilizado. Mas se colocarmos em nossa vida, significa uma porção de outras coisas. Significa que você está saudável. Que quando quiser, pode gerar uma vida. Significa também, que desta vez você não gerou, o que pode ser motivo de comemoração muitas vezes – Ufa! Quem nunca?

Veja bem, não digo que todas as minhas experiências foram felizes. Meu uniforme da escola já manchou, me deixando embaraçada. Demorei para conseguir pedir absorvente e anticoncepcional na farmácia sem sussurrar. No trabalho ou faculdade, escondia o absorvente na blusa várias vezes quando estava indo ao banheiro trocar.

Nossas mães nos educam a esconder esse período: “seu irmão não precisa ficar vendo essas coisas”. E se algum cachorro com o faro aguçado se aproxima, a gente sabe quem vai ser o alvo. Ora, se uma mulher tem útero, mulher menstrua, certo?!

Como eu vou impedir – ou em algum linguajar desconexo, proteger – todos os homens e cachorros da terra de saberem que eu estou menstruada?

Sangro, pero no muero

Aprender a lidar com o próprio corpo pode tornar esse processo menos traumático. Os avisos do organismo nos são bem claros, dores de cabeça, cólica, alterações de humor… Mas cada processo tem seu motivo, e a interpretação é restrita ao nosso ambiente cultural.

No xamanismo a menstruação é um momento de poder feminino, é chamado de tempo-de-lua. É a renovação de um ciclo, uma conexão com a natureza, Mãe-Terra e Vovó-Lua. A consciência nativa acredita, inclusive, que a tal TPM é fruto do desgosto e maldições que colocamos sobre nosso útero ao reclamar da menstruação.

Em sociedades matriarcais, o sangue era uma forma de reverenciar a Deusa. O sangue menstrual era sagrado para os Celtas, Egípcios, Tântricos, entre outros. No misticismo, o sangue é a sabedoria que o corpo já não quer mais. Emoções e energias negativas se vão, dando espaço ao novo. Sangue é matéria viva, orgânica. Sangue também cria, transmite. 

A britânica Bodyform, desconstruiu a cansativa imagem publicitária em torno da menstruação. Em Blood, comercial que tem rodado a internet nos últimos dias, vemos sangue. Vemos também nossas tarefas cotidianas, mostradas exaltando a fibra feminina, que mesmo com data marcada para perder alguns mililitros de material genético, não para. Continua.

“No blood should hold us back” (Nenhum sangue deveria nos segurar), é a frase principal do roteiro que tem assinaturas brasileiras, direção de Jones + Tino (produtora Stink), redação de Caio Gianella e o direção de arte de Diego Oliveira – ok, achei esquisito uma equipe tão masculina, mas vamos deixar passar.

A concepção que temos de nosso período menstrual está diretamente ligada a forma que o enxergamos desde muito novas. O sangue mostrado pelas imagens dos absorventes é sempre azul. Neutro. Anti natural. Quando contamos a alguém que estamos “naqueles dias”, nunca usamos a palavra chave. São os sinônimos, que soam menos agressivos. “Estou de visita”, “Tô de Chico”, “Sinal Vermelho”.

Se estar menstruada é tabu, transar nesse momento é infâmia. Existiam crendices, patriarcais e cristãs, que colocavam a mulher como impura. Quando em ciclo, ela não deveria ser tocada. Se um homem entrasse em contato com essa mulher, se tornava tão impuro quanto ela. Aqui, um salve a Raul Seixas, vampiro doidão, que chupava sangue de menstruação – nossos úteros  e líbidos agradecem.

O medo da menstruação é como uma histeria coletiva, inciada por um sistema que procurava subjugar mulheres, e que se espalhou de tal forma que todas padecemos da loucura. A solução? Falar sobre. Pensar sobre.

Você não precisa comemorar todo mês, fazer um ritual com a Lua ou procurar um adepto das canções de Raul – embora essas pareçam opções bem interessantes – mas conviver em harmonia com o próprio corpo é um ato de amor que revoluciona.

Desejo dias vermelhos e sem vergonha, como foram meus últimos sete.

😉

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O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.
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