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Pra dar volume às ideias: uma revolução cacheada

Escrito por em 13 de agosto de 2017

A quantidade de vezes que eu mexo no meu cabelo é a mesma com a qual as ideias correm pela minha cabeça… Nem sempre dá pra entender. Nossos fios tem uma conexão intensa com nossa própria identidade. Compreender como a cabeleira se adapta a gente, é também um processo de autoconhecimento.

A revolução cacheada está por toda parte, deixando chapinhas e escovas num canto esquecido do quarto. Além de mais volume, ganhamos também em representatividade. Diferentes belezas, mais naturais, ocupam o imaginário e as revistas – como fazemos aqui!

Mas antes que tudo isso te dê um nó na cabeça, deixa que te explico como tudo funciona.

A verdade é que não existe uma fórmula para os cabelos perfeitos.

Bem sabem as progressivas cheias de formol.

A Graziela Ribeiro e Marília Woitas, do Cabelo Ateliê, me explicaram as diferentes texturas que acompanham os fios: lisos, ondulados, cacheados ou crespos. O que variam são os anelados dos cabelos, dos mais abertos no caso dos ondulados, aos mais fechados até o crespo: quando não se percebe mais a definição dos fios, com um formato aberto, livre e único!

Uma cabeça pode ter vários desses formatos a compondo, o que só deixa tudo ainda mais interessante. Se você não sabe qual seu tipo de cabelo, a dica das especialistas é deixar que ele seque ao natural. “A chave é observar a textura dos fios”, explica Grazi, “não é uma ciência exata. Seu cabelo pode apresentar mais de uma textura, assim como pode apresentar texturas diferentes de acordo com fatores internos (hormonais, alimentação) ou externos, como a umidade do ar”, completa.

Quer coisa mais cheia de personalidade que cabelo?

Pela primeira vez, a busca por cabelos cacheados supera a dos lisos no Google. De acordo com o último relatório divulgado pela Google BrandLab, o interesse pelos cabelos afro cresceu  309% nos últimos dois anos. A nova geração de mulheres começa a ter mais facilidade em se identificar como cacheadas, 24% das jovens entre 18 e 24 anos identifica os cachos em sua cabeleira.

No relatório do Google, uma em cada três mulheres diz já ter sofrido preconceito por ter os cabelos cacheados. 

>>Confira aqui nossa lista de profissionais especializados em cabelos cacheados em Curitiba<<

Quanto mais velha a mulher, maior dificuldade ela terá em se declarar como cacheada. A associação feita durante muito tempo de que um cabelo cacheado é fruto do descuido, interfere ativamente nessa percepção.

Ursula Coelho é estilista da Frescurinhas de Pano, demorou pra ela compreender o se passava com seus fios rebeldes. “Eu sentia muita falta de alguma referência, não conhecia modelos ou famosas com cabelos cacheados”, me conta.

“Eu amo meu cabelo cacheado, eu amo as possibilidades de penteados que ele me dá e eu amo que ele tenha personalidade própria. ” _Ursula

O alisamento se torna a saída para corresponder ao padrão. Mas a ditadura da química também está com dias contados! A busca pelas transições capilares cresceu 55% nos últimos dois anos. A Kissenia Souza também passou pelo processo. Alisou seus cabelos durante quatro anos, até que eles caíssem e ela desenvolvesse alergia ao formol usado no procedimento.

“Quando cheguei nesse ponto, coloquei dreads pois não tinha coragem de fazer o BC (big chop), e só 1 ano após ter feito os dreads tive coragem de solta-los e deixar o black ir criando forma e espaço, hoje ele está aí com todo o volume”. Hoje, Kissenia sente que desfilar o volume dos cabelos por Curitiba, uma cidade majoritariamente branca, a torna uma referência para crianças que ainda não estão completamente seguras com sua identidade.

“Sinto meu cabelo como um ato político.” _ Kissenia

Um breve dicionário dos cabelos cacheados

 

 
BC (Big Chop) –  Hora de cortar toda a parte do cabelo afetada pela química
Co-wash – Lavagem dos cabelos apenas com condicionador.
Cronograma capilar –  Rotina de cuidados com os cabelos para reposição de nutrientes.
Day after –  Dia que se segue à lavagem, quando os cachos costumam se desfazer
Leave-in – O famoso “creme para pentear” sem enxágue que protege dos efeitos do sol, secadores, modeladores e chapinhas.
Fitagem – Técnica usada para definir os cachos durante a aplicação do leave-in.
LOC –  Técnica de finalização usando líquido + óleo + creme em um borrifador.
Low Poo/No Poo – Técnica de lavagem do cabelo sem uso (ou com uso bastante reduzido) de xampú e/ou produtos que tenham sulfatos e parabenos.
Texturização – Técnicas para cachear a parte do cabelo que ainda tem química e disfarçar a diferença de textura com relação à raiz natural.
Transição capilar – Processo de abandonar as químicas assumindo os cabelos naturais.
Umectação – Selagem dos fios com óleos vegetais.
Misturinha – Combinação caseiras de óleos, cremes, ampolas e vitaminas para hidratação dos cabelos.

 

As fotos

 

Nessas fotos registramos várias mulheres, que assim como eu se descobriram cacheadas. Elas me contaram suas histórias e compartilharam um pouco de como é a transição. Cada uma tem uma cor, assim como cada um tem um cabelo. As flores são para expressar a delicadeza da auto aceitação: um processo que floresce aos poucos.

A fotógrafa é a Fran Dresch, que se dedica a registrar diferentes belezas femininas. O figurino é feito pelo brechó Barbies na Caixa, dos queridos Kissenia Souza e Gilmar Alves. A beleza é Carol Leal e Rafaela Vidal.

“Eu amo meu cabelo, mas passei dois anos pela transição. Tentei de todas as formas alisar, não consegui. Só acabei estragando meu cabelo. Foram dois anos de luta pra voltar ao natural, com as pessoas falando mal e chamando de tudo quanto é nome…. Hoje sou modelo por causa do meu cabelo”. _Clélia

 

“Tenho 24 anos e desde que eu tinha uns 7 a 8 anos minha mãe sempre fez relaxamento no meu cabelo. A sociedade sempre cobrou muito isso das mulheres de cabelo crespo principalmente, por não pode armar, não pode aparecer, não pode ser você. Então as mães para nos proteger dessa sociedade sempre faziam esses procedimentos. Me acostumei a isso. Pois achava que era a única solução. Porém sempre me pegava pensando por que Deus deixava isso acontecer com as pessoas, por que eu não podia ser eu mesma. Sempre tive o desejo de saber como era meu cabelo natural, mas até os 20 anos não tive coragem. Até que comecei a trabalhar com uma moça que estava em transição e me incentivou a mudar minha vida. Atualmente ela é uma das minhas melhores amigas, e parceira de black.  Graças ao incentivo dela de colocar as tranças para aguardar o crescimento, de colocar turbante, de fazer vários procedimentos que foram anunciados nos vídeos das youtubers com o tempo. Às vezes as pessoas me abordam e falam, “ah esta na moda né?!”. Eu só falo que pra algumas pessoas pode até ser moda, mas a questão do cabelo crespo é muito mais intensa que uma simples moda. É quem eu sou. É como eu me conheci. Mudou minha vida completamente. Tenho ajudado muitas meninas que conversam comigo sobre a questão do cabelo e tudo mais. É importante esse conhecimento e amor próprio não só para as mulheres crespas e cacheadas, mais sim para todas as mulheres fazerem o que quiserem dos seus cabelos e das suas vidas. Se libertarem dos padrões que a sociedade impõe desde sempre para nós.” _Cris

“Durante uns 6 anos usei trança raiz… pois nunca usava soltos!!! ate aceitar o volume e a identidade dos meus cachinhos!!! E os conselhos de uma amiga especialista em cabelos afros.” _Isa

“Meu cabelo e eu tivemos uma história bem louca, muito parecida com a de muitas cacheados por aí. Quando era pequena minhas melhores amigas sempre tiveram cabelos lisos, minha mãe também tem. Eu achava que o meu era estranho, não conseguia fazer os mesmos penteados e o único elogio que eu escutava era “nossa que diferente ela”! Olhando para a moça de hoje, talvez isso não cause nenhum dano. Mas para a menina de 7 anos, do cabelo enroladinho, era chato demais ser diferente. Foi com 11 que eu decidi alisar – eu sei minha mãe era louca! Mas eu entendo, reclamava demais, pedia demais pra ter o cabelo das minhas amigas. Não tinham me ensinado que o meu também era bonito! Só me disseram que era diferente. Chegar até aqui foi tão difícil, e as vezes ainda é. Às vezes da um aperto no coração pensar em tudo que meu cabelinho significa. Significa não querer mais ser igual. Significa aceitação. Amor por mim e amor pro que faz com que eu, do meu jeitinho enrolado, continue sendo eu mesma. Meu cabelo não é ruim, meu cabelo é só amor. ” _Clara

“Mesmo meu cabelo não sendo tããão cacheado, eu tive um processo de transição porque vivia de chapinha, sempre liso, sempre ressecado e judiado por conta disso. Foi bem chato me acostumar com ele como ele é. Fiz isso enquanto ele ainda era longo. Depois que cortei voltei a passar chapinha durante um tempo porque não conseguia deixar ele ajeitado cacheado. Agora ele está em um tamanho que já consigo aproveitar a textura”. _Isabeau

 

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O nome é Hellen, mas pode chamar de Hell. Jornalista, feminista e contraditória, tenho como combustíveis o café, poesia e boas gargalhadas. Minha relação com a escrita é a mais longa que já tive, mas vivo em flerte com a moda. Sou aficionada por histórias, portanto é fácil me encontrar em um brechó, as buscando nas roupas; em um sebo, perdida nas páginas dos livros; ou observando tudo que há a volta – cuidado para não trombar comigo! Acredito na beleza como um sentimento e na moda como uma expressão cultural.
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